
O jornalista André Shalders entrevista físico Ricardo Magnus Osório Galvão, 71 anos, que deixou na sexta-feira (02) o comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), na BBC Brasil.
(…)
BBC News Brasil – Qual é a origem desses dados de alertas de desmatamento?
Galvão – Desde 2004, esses dados são usados e foram usados muito bem nas gestões da Marina Silva, do Carlos Minc, para fazer uma redução drástica (do desmatamento).
Se olhares os gráficos, de 2004 a 2012, a taxa de desmatamento da Amazônia sofreu uma redução drástica. Por quê? Porque nós tínhamos um acordo de colaboração técnica com o Ibama.
Fornecíamos os alertas e eles, antes de atuar, se precisassem de mais detalhes sobre uma área antes de enviar a fiscalização, entravam em contato conosco, e tudo funcionava perfeitamente.
Infelizmente, a partir da entrada do ministro Salles esse relacionamento foi cortado, e ele anunciou para os jornais que ia contratar uma empresa estrangeira para fazer isso que o Inpe faz.
BBC News Brasil – O que vocês acham dessa possível contratação de uma empresa estrangeira para fazer o monitoramento da Amazônia?
Galvão – Isso nós achamos muito errado. Porque a razão da credibilidade que os dados do Inpe têm, que as ações dos governos anteriores tinham, é que o Inpe, que pertence ao MCTIC, é o encarregado de prover os dados e fazer a medida real de desmatamento, e quem deve fazer a fiscalização é o Ibama, que está em outro ministério.
Então, não havia conflito de interesses.
Agora, naturalmente, (se) o Ministério do Meio Ambiente contratar a empresa ele mesmo, há conflito de interesses. A empresa vai dar os dados que eles quiserem.
BBC News Brasil – É preocupante, então?
Galvão – Toda a sociedade acha preocupante.
Então, na hora que o presidente fez aquela acusação muito grave, eu considerei que era importantíssimo reagir de maneira contundente na mesma hora, e foi o que eu fiz.
BBC News Brasil – O que significaria para o país se o Inpe perdesse realmente a atribuição de fazer o monitoramento do desmatamento?
Galvão – Seria a perda total de credibilidade do provimento de dados sobre o desmatamento da Amazônia.
A primeira consequência seria afetar violentamente as nossas exportações.
Até agora eles (MMA) não tomaram nenhuma medida contundente a respeito do desmatamento. Eles reclamam dos dados mas não têm mandado ninguém lá para fazer a fiscalização e punir os culpados. Muito poucas atividades em sítio.
Então, se crescer o desmatamento da Amazônia, é uma perda irreparável para o mundo. E para o Brasil em particular.
Eles não percebem que a Amazônia não é só para explorar minerais. A selva nativa que tem lá é importantíssima para os ciclos meteorológicos no Brasil todo, para as chuvas em todos os lugares. As consequências seriam enormes para a biodiversidade.
Seria seríssimo se eles dessem continuidade a isso.
BBC News Brasil – Como foi a reunião na qual o ministro Marcos Pontes comunicou seu afastamento? Ricardo Salles estava presente?
Galvão – A conversa foi só com o ministro Marcos Pontes. Foi muito construtiva, no começo… aliás, durante toda a conversa. Falamos durante mais de uma hora.
A conversa foi muito boa. Eu expliquei toda a situação a ele, mostrei a ele que nós tínhamos atendido a todas as demandas, alertei sobre esse ofício que tinha mandado a ele avisando que o embate (com o MMA) era desnecessário para o país e ia causar sérios problemas a nível nacional e internacional.
Esse ofício foi agora, no dia 3 de julho, depois que o general (ministro chefe do Gabinete do Segurança Institucional Augusto) Heleno falou contra os dados do Inpe. Lembrei ele disso e disse que o ministério não tomou nenhuma ação. Não entraram em contato comigo, não se preocuparam.
Eu tenho a impressão de que o ministro do Meio Ambiente não tinha ideia clara, até acontecer todo esse problema, da dimensão do Inpe e da respeitabilidade internacional que tem.
E aí quando o presidente falou (contra os dados do Instituto), eu pensei com calma e resolvi dar uma resposta contundente, porque eu fiquei com muito medo de que eles acabassem tirando do Inpe toda essa atividade de monitoramento do desmatamento na Amazônia, que nós temos desde 1988.
BBC News Brasil – O sr. pensa em interpelar judicialmente o presidente por causa das declarações dele?
Galvão – Foi proposto por dois advogados, que eu não vou dizer o nome, de grande prestígio. Mas não o farei. Acho que seria muito prejudicial ao país e eu não tenho interesse de fazer isso.
Mesmo porque a ação que eu tomei já teve o efeito desejado. Toda a comunidade científica está atenta, agora mesmo vou atender a um jornalista dos Estados Unidos. Estão todos muito atentos (aos acontecimentos no Inpe e na área ambiental). E o efeito principal para o Brasil eu já tive, com essa ação.
A não ser que ele continue me acusando, porque ontem ele me acusou de traidor novamente. Mas não pretendo tomar nenhuma atitude não.
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2019-08-06 01:25:00Z
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/exportacoes-serao-violentamente-afetadas-se-inpe-parar-de-medir-desmatamento-diz-ricardo-galvao/
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